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    Artigo: Micropoecilia cf. branneri "Parnaíba"

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    (fjcb)

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    Artigo: Micropoecilia cf. branneri "Parnaíba"

    Mensagem por (fjcb) em Sex Jun 04, 2010 8:01 am

    Nativa do Nordeste do Brasil, essa esplêndida espécie representa, na minha opinião, uma das mais interessantes da família Poecilidae. Apresenta tanto machos quanto fêmeas coloridos de formas distintas, característica rara em meio a tantas espécies de machos de coloração impressionante e fêmeas completamente pardas.

    As fêmeas apresentam a forma roliça clássica da grande maioria das fêmeas de vivíparos, com a nadadeira caudal levemente lanceolada e de corpo dourado com um leve brilho esverdeado. Elas possuem dois ocelos bem definidos, um rodeado por escamas mais metalizadas logo acima da bolsa de órgãos, quase no dorso, e outro no final do pedúnculo caudal, de borda em amarelo vivo. Podem também apresentar listras logo após o primeiro ocelo, a definição das mesmas varia bastante de acordo com o exemplar e sua posição na hierarquia do grupo.



    Os machos apresentam a nadadeira dorsal dourada com o contorno negro, alongada, em forma de pena e de comprimento que pode ultrapassar a nadadeira caudal. São bem mais esguios que as fêmeas e a coloração varia bem mais, de acordo com a idade, exemplar e/ ou posição hierárquica. Os menores, de posição mais baixa no grupo, apresentam listras mais finas, mais definidas e em maior número que as das fêmeas e também os dois ocelos nas mesmas posições, mas o primeiro tem bem menos escamas metalizadas e a borda do segundo se estende até a extremidade superior da caudal, formando uma “espada” de coloração belíssima, contendo verde, vermelho, amarelo, azul e negro. Já os maiores, de posição mais elevada no grupo, possuem apenas o ocelo do pedúnculo caudal, seguido pela mesma seqüência de cores, e suas listras são quase ausentes, vistas apenas quando há reflexão lateral no corpo do peixe. O que compensa a perda das listras e do ocelo é uma coloração dourada com tons acobreados no corpo inteiro e escamas metalizadas por todo o dorso do peixe.


    Macho de posição hierárquica menos privilegiada.


    Macho de posição mais elevada.

    Não é só na coloração que essa espécie se difere dos poecilídeos mais comuns no hobby, mas também no comportamento. Há uma hierarquia muito bem definida no grupo, disputada por brigas e duelos entre exemplares de mesmo gênero. Assim que definida, os duelos entre fêmeas se tornam praticamente inexistentes e os entre machos se reduzem bem, os machos mais próximos ao “alfa” frequentemente dão corridas rápidas e curtas nos mais próximos ao “ômega”; há alguns duelos reais, porém bem raros.


    Um duelo entre dois machos de mais baixa hierarquia. É fácil de se notar na foto qual deles é o mais dominante.

    O comportamento reprodutivo também impressiona. Além das fêmeas não serem completamente passivas, afastando machos que não as interessam, já pude observar alguns cortejos raros das fêmeas ao macho dominante, apesar do contrário ser muito mais comum. A dança nupcial do macho por vezes é a mais comum: o macho se exibe à fêmea por um período bem curto e depois corre atrás dela com o gonopódio já estendido; e por vezes mais elaborada: o macho se posiciona de frente à fêmea e dá “bicadas” de leve em sua cabeça.

    O tempo de gestação é incerto já que quase todo dia a fêmea libera de um a três alevinos e os acasalamentos ocorrem muitas vezes por dia. A postura dos filhotes se dá em emaranhados de plantas flutuantes. A fêmea se põe em meio às raízes das flutuantes ou na pequena lâmina d’água entre uma folha imersa e a superfície e lá faz a postura. Os alevinos nascem com 2-3mm, ainda com o final do saco vitelino e são extremamente vulneráveis a infecções. Os adultos são vorazes e, ao contrário de algumas espécies mais pacíficas, tentarão devorar os alevinos assim que os virem.



    A agressividade da espécie se mostra até nos alevinos. Esse conseguiu devorar a daphnia mostrada na foto, mesmo com o tamanho de ambos.


    Filhote já com pouco mais de uma semana de vida.

    Os meus são provenientes da Lagoa da Prata, pertencente à bacia do rio Parnaíba. Não fui eu quem os coletou, mas sim meu caro amigo Carlos Eduardo de P. Ribeiro. Portanto só poderei mostrar fotos de autoria dele do maravilhoso local que é a lagoa.


    Imagem de satélite da lagoa.


    Vista geral.


    Vista geral.


    Local da coleta.

    Creio tratar-se de uma espécie pouquíssimo exigente em relação a parâmetros físico-químicos da água, já que, de acordo com quem os coletou, são encontrados em locais de pH ácido (6.2) e também em locais de pH básico (7.5). Porém, o que pude perceber por aqui é que ficam mais vívidos e coloridos em pH levemente ácido (6.8 ), além dos acasalamentos ficarem mais frequentes. Em adição, é uma espécie de rusticidade grande também, tive caso de machos encontrados semimortos, de ponta cabeça pela manhã devido a brigas intensas que depois de poucas horas já estavam se comportando normalmente e comendo da maneira voraz com que sempre o fazem.

    Devo agradecimentos a todos aqueles que me encorajaram no ramo dos vivíparos e, é claro, ao meu amigo Carlos Eduardo de P. Ribeiro, pois sem tais pessoas não eu não iria estar tendo tal maravilhosa oportunidade de criar, observar e manter tão fantásticos peixes. Espero conseguir continuar com o sucesso que estou tendo nessa manutenção (já são quase 50 filhotes, em dois meses que os tenho) e, até onde for possível, espalhar tanto a popularidade quanto exemplares dessa incrível espécie.

    Felipe Aoki Gonçalves.

      Data/hora atual: Seg Maio 29, 2017 11:12 am